Honoráveis bandidos

É impressionante o quanto uma única pessoa pode estar envolvida em tantos escândalos.

Em suas 207 páginas, o livro Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória, retrata as bandidagens e trambiques do clã maranhense que há mais de meio século está envolvido no lado fétido da política nacional.

Com uma abordagem inteligente, Palmério destrincha a vida pública do coronel do Maranhão, que de assessor de Paulo Maluf ao seu terceiro mandato como presidente do Senado (o livro é de 2009, e o Brasil ainda veria em 2011 esse lamentável fato acontecer novamente) desviaria bilhões de reais do erário.

A cada página a indignação aumenta, tamanha a cara-de-pau das personagens. Nomes conhecidos da cúpula nacional são citados, em um emaranhado de troca de favores, corrupção e tráfico de influência que deixaria qualquer mafioso italiano de outrora com inveja.

O livro, por listar “de cabo a rabo” toda uma rede de bandidagem que – infelizmente – ainda se estende de Brasília para o restante do país, é um verdadeiro “memoriol” para nós brasileiros, que sofremos da síndrome da memória política curta.

Considero uma obra que deveria ser lida por todo aquele que completa 16 anos e se torna habilitado ao sufrágio universal. Seu índice remissivo é um verdadeiro tesouro para a busca da vida pregressa de políticos e ocupantes de cargos públicos.

Honoráveis bandidos – Um retrato do Brasil na era Sarney, é um tapa na cara, mais na nossa que na deles, que mesmo diante de tantas tramóias, ainda elegemos tais pessoas como nossos representantes.

Leitura recomendada, embora para aqueles de estômago fraco, seja necessário um bom estoque de dramin.

Pelo direito à informação

Acabo de ler um post no HSM blog sobre acesso informação transparente. Assinado por Ricardo Almeida, o artigo busca analisar um pouco sobre a premissa defendida pelo grupo Wikileaks, a saber, a luta pelo direito à informação.

Sua linha de raciocínio tenta ressaltar os efeitos colaterais causados pela prática do referido grupo de liberar material “confidencial” na rede. Até ai tudo bem. O que não podemos, Sr. Ricardo, é sucumbir a política do medo, e abrir mão de nossos direitos individuais para que governos e grandes corporações decidam tudo sem o real entendimento da sociedade sobre as regras do jogo.

O argumento usado aqui é a segurança por obscuridade. Ele afirma:

“a mesma informação que pode eclodir movimentos populares legítimos pelo planeta pode também auxiliar terroristas em estratégias muito pouco heróicas” (o grifo é nosso).

Ora, essa dualidade não se apresenta praticamente em tudo na vida? A internet pode ser utilizada para a pesquisa do câncer, quanto para a pedofilia. O telefone, para conversar com parentes distantes, ou facilitar um “seqüestro-relâmpago”. O avião encurtou as distâncias, mas é utilizado para a guerra. A medicina, a física, a química, para não elencar apenas algumas ciências, também foram várias vezes subvertidas para fins não tão nobres. Por sorte, grandes mentes as utilizaram para o desenvolvimento da humanidade. E esta é a natureza humana, o yin-yang da vida.

Na sua busca por justificar o injustificável, o Sr. Ricardo cita um documento liberado pelo wikileaks:

“O Wikileaks divulgou um documento secreto da CIA listando dúzias de localidades consideradas mais vulneráveis a ataques terroristas, tanto pela alta concentração de pessoas quanto pela carência de esforços de defesa. Um prato inegavelmente cheio para organizações como a Al Qaeda, citando apenas a mais famosa” (ibid).

A meu ver, este prato pode ser repartido da seguinte forma: os cidadãos tomam ciência de lugares que carecem de esforços de defesa, tornando-se mais cuidadosos, além de cobrar o governo que revise as medidas de segurança; os governos (em todas as esferas) tomam ciência de suas fraquezas, e então poderão minimizar os riscos das mesmas.

Estatísticas podem ser utilizadas para dar sustentação a qualquer ponto de vista. O autor da HSM recorre ao Google para fundamentar sua premissa:

[...] sabe quais países apresentaram maior densidade de buscas ao Wikileaks em todo o mundo, de acordo com o “Google Insights for Search”? Moçambique, Quênia, Uganda, [...] Grande parte desses países, diga-se de passagem, é considerada reduto histórico de organizações terroristas.

Utilizando a mesma ferramenta para uma busca pela palavra al Qaeda, sabe quem lidera? Estados Unidos, Reino Unido, Canadá…  Ué, mas os terroristas não estão em países pobres? Vai ver que tudo isso é pesquisa escolar para a high school.

Quem mais procura por arms? UK. Quem mais procura por drugs? Canadá. Seria este o país dos viciados e traficantes? Sabe-se que não. E o que essas estatísticas provam? Absolutamente nada.

Em seu artigo “A nova Constituição Brasileira e o Direito a Informação”, a profa. Kira Tarapanoff sustenta que a informação é um direito de todos, e que garantir este direito é um dever do Estado. Toby Mendel, Diretor do programa de Direito da ONG Article 19 é categórico:  “precisamos saltar de uma cultura do segredo para uma cultura de acesso” (tradução livre).

É claro que há exceções, como uma lista de pessoas inscritas no programa de proteção a testemunhas, por exemplo. Porém tais exceções precisam ser definidas de maneira clara, e só mantidas confidenciais quando o dano causado pela liberação for maior do que o interesse público em ter essa informação. Neste sentido, segundo a UNESCO, 80 países já possuem uma lei de acesso a informação. O Brasil inclusive possui um projeto de lei  (PL 5.228/2009) em andamento.

Respondendo a sua pergunta, Sr. Ricardo, sim, o acesso a informação é muito bom, e precisa ser resguardado. Não sejamos tolos. O interesse de manter a informação restrita favorece apenas os grupos dominantes e a mídia tradicional, em decadência com a revolução da rede.

Estejamos atentos, pois argumentos como estes irão pipocar aos montes, e é nosso dever como cidadãos esclarecer sobre o que estar em jogo. Faça a sua parte!

Saudações Livres!

Escutando torres de controle de aeroportos

Sempre teve curiosidade em saber como são as conversas entre operadores de vôo e pilotos? Seus problemas acabaram.

Vi no blog do Paulino esse post curioso. Um site chamado LiveATC.com fornece links para o áudio das conversas de vários aeroportos do mundo. Testei e o serviço realmente funciona. Não sou fã de simuladores de vôo, mas fica ai a dica geek do dia.

1808 e a familia real no Brasil

Há muito tempo não lia um livro de não-ficção tão divertido. Resultado de 10 anos de investigação jornalística, 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil, é uma obra espetacular.

Com muito bom-humor, Laurentino Gomes descreve habilmente o desenrolar de fatos que culminaram na vinda da familia real portuguesa para o Brasil e as transformações radicais que tal evento provocou na maior colônia lusitana.

Mostra não apenas a história burguesa, dos fatos grandiosos, mas o cotidiano do Rio de Janeiro, seus costumes, comércio e sociedade.

Um ponto forte são as notas e referências bibliográficas, o livro está recheado delas. Inclusive alguns dos títulos já estão na minha lista, para uma futura aquisição, como “a longa viagem da biblioteca dos reis”.

Em suas 414 páginas, 1808 resgata a importância que D. João VI teve no cenário mundial, a ponto de ser mencionado por Napoleão como “foi o único que me enganou”. A escravidão, a troca de favores e a corrupção são retratadas sem aspectos tendenciosos, abordagem esta adotada por Laurentino durante todo o Livro.

Publicado pela Editora planeta, a obra retrata de maneira hábil e envolvente este que foi um importante momento da história brasileira.

1808 é leitura obrigatória para aqueles curiosos sobre a origem da nação brasileira, sua formação histórica e de seu povo. A venda na submarino.com.

A caminho do grunhido

Estava aproveitando a manhã de Domingo pondo os meus feeds em dia quando um artigo no jacaré banguela (um dos meus blogs favoritos de humor) me chamou a atenção. Era sobre uma estrevista de José Saramago, que em certo momento comentava sobre o twitter. Saramago, que inclusive tem um blog, disse:

saramago-twitte - original http://buzz.globo.com/files/136/2009/08/saramago-twitter-o-globo-2-jb.jpg

Na hora em que li a entrevista, me veio a mente uma sessão nostálgica de uma aula de português no segundo grau (caramba, isso foi no milênio passado...), onde discutimos exatamente isso. O exemplo utilizado foi o seguinte. No Brasil imperial e por algumas décadas que se seguiram, quando se estava em uma roda de amigos e desejava sair, usava-se a seguinte frase:

- Vamos em boa hora.

Muito esquisito, não acham?  Com o passar do tempo, a construção diminuiu para algo menos pomposo:

- Vamos embora.

Ah! Esta eu já ouvi.  Mas a busca pela “melhoria” do idioma movido pela preguiça e inicialmente pelos 140 caracteres do SMS , acabou colocando-a em desuso, incluindo na linguagem falada. Pra que usar duas palavras quando podemos usar apenas uma?

- Vambora!

Agora sim! Estamos quase lá! “Vambora que senão vamos chegar atrasados!”.  Porém, ainda podemos reduzir um pouco mais:

- Bora!

Opa! 4 caracteres! Duas sílabas para pronunciar! “Bora ali buscar uma cerveja pra comemorar”. Mas somos brasileiros, e não desistimos nunca! Dá pra usar só uma sílaba!

-Bó!

Tchan! Perfeito! Aqui em Dili é difícil escutar, mas quando estava no Brasil, era “bó na festa hoje?”, “bó tomar uma?”, “bó no Fisl esse ano?”. Bó pra cima e pra baixo.

Saramago está certo. Estamos a caminho do grunhido! Argh! Wow! Eah!

Aventura de Domingo

Em Dili não se tem muitas opções de diversão. Domingo passado cá estava eu sem muito o que fazer quando recebo um sms dos meus vizinhos, convidando para ir à praia. Eles pretendiam visitar uma feira de artesanato em uma cidade próxima e fazer um “picnic” em uma das praias pelo caminho. Se tem uma coisa que o Timor-Leste tem de bonito são as suas praias. É de encher os olhos. Aproveitei a chance de conhecer um pouco mais da ilha e aceitei o convite.

Chegamos a cidade de Maubara, no litoral Oeste do Timor, em mais ou menos uma hora. São curvas e mais curvas com direito  a montanhas e um visual rústico de interior.

Maubara

As curvas do timor

Não sei se nossa expectativa era grande, mas a “feira” resumia-se a dois quiosques na beira da praia. Porém não vamos reclamar de tudo né? Tinha tais, cestinha de palha, enfeites para porta…

Feirinha

E para a nossa surpresa, em frente a feirinha havia também um forte da época da colonização portuguesa, que logicamente aproveitamos para conhecer. Era bem pequeno, com apenas dois canhões, mas já tornou o passeio mais divertido.

Atacaaaar!

Atacaaaar!

Depois do breve momento cultural, decidimos zarpar. Fomos então em busca de uma praia onde pudéssemos estacionar e encontrar uma sombra. Depois de alguns sobe-e-desce, achamos o lugar “ideal”.

Escolhemos uma árvore, pusemos as esteiras. Melhor do que isso só se tivesse antarctica (ou corona, minha nova paixão) e churrasquinho de um real. Mas como alegria de pobre dura pouco, o “melhor” ainda estava por vir.

Praia em Liquiça

Uns 40 minutos depois chegam dois carros lotados de Indonésios. Em um litoral tão extenso como o do timor, eles foram escolher justo a praia onde estávamos, e mais ainda, a nossa árvore! Isso mesmo, a caravana, em um total de mais de 15, teve a cara de pau de se instalar embaixo da mesma árvore, quase colados na gente. Isso porque havia a imensa quantia de…  um único casal, em toda a praia. A farofada começou em um ritmo frenético e sem o maior pudor. Além de  sem-noção de espaço, a caravana ainda era porca, jogando tudo quanto é latinha e garrafa plástica no chão da praia… :| Quando achávamos que não poderia ficar pior, um outro veículo aportou, desta vez um caminhão!

Caminhão timorense

Caminhão timorense

Qualquer um ficaria desmotivado, chateado, cabisbaixo, mas não Josef Climber o trio brazuca. E eis que aconteceu uma daquelas coisas engraçadas que se você não estivesse presente não acreditaria. Do caminhão emanou aquele som, detestável mas reconhecido:

Me diz o que ela significa pra miiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, se ela é um morango aqui no nordestiiiiiiiiiiii!

A quase 20 mil quilômetros de distância, em uma praia supostamente deserta, em um pequeno país-ilha do sudeste asiático, ser presenteado com morango do nordeste tocou o coração. Era um sinal para relaxar e curtir o dia, deixando de lado todo e qualquer problema. :)

No final das contas, o passeio foi bem legal. E na volta para casa ainda presenciamos um jogo de futebol no cascalho, com direito a arquibancada pra torcida e tudo!

Futebol

Dividir para conquistar

O provérbio é antigo, e tem o seu valor. Ultimamente não tenho escrito para o blog.edermarques.net, mas quando o faço, geralmente são textos não relacionados com Software Livre ou tecnologia.

Alguns leitores (ainda tenho leitores!) relatavam que as vezes era chato ler um relato sobre o Timor-Leste, por exemplo, em meio a um tutorial sobre configuração de subversion  – “sub o quê?”.

Por outro lado, alguns dos planets que distribuem meus artigos são focados na parte técnica, e isso complica quando a quantidade de material não-técnico supera os posts sobre gerência de sistemas, software livre, entre outros.

Assim, decidi separar os artigos em dois blogues. A partir de agora o blog.edermarques.net terá matérias sobre tudo na minha vida não relacionado a parte técnica da coisa. Pois deixar de ser geek ele não tem como, a menos que eu fizesse um implante de nova personalidade. :)

O objetivo da mudança é facilitar um pouco a minha vida, quando estiver a procura daquele manual renegado.

Com isso, estou fazendo uma “limpeza” no material publicado. Tudo o que é técnico será movido para o novo blog:  techbits.edermarques.net

Espero que apreciem a mudança. :)

Um semestre inusitado

É notável como o tempo as vezes passa rápido. A última vez que escrevi para o blog foi em Março. De lá para cá, muita coisa ocorreu.

Terminei (finalmente!) o curso de mergulho. Agora sou associado PADI. Esses dias devo mergulhar novamente, desta vez com uma câmera. :)

Após seis meses distante, trouxe minha noiva para passar as férias comigo. Para compensar todo esse tempo de espera, nada melhor do que as paradisíacas praias da Tailândia. Fizemos safari noturno, rafting, trilha, banho de cachoeira, cruzamos um país de trem. Foi a primeira lua-de-mel, de algumas que pretendo ter antes de oficialmente se casar, hehehehe. Também conhecemos Singapura e Malásia.

Fui alocado em um novo projeto, agora na Procuradoria Geral da República. Provavelmente devo ficar por lá até o retorno ao Brasil, que acontecerá em Novembro.

Aluguei uma casa. Agora tenho uma cozinha para testar meus dotes culinários.

Comecei a estudar para a certificação ITIL, que devo tirar em Setembro.

Terminei de ler a trilogia O Senhor dos Anéis. Muito bom!

Comecei a estudar Francês por conta própria. Estou num curso de revisão de inglês onde existem alunos de mais de 7 diferentes nacionalidades.

Estou planejando minha visita a China mês que vem. Ao solicitar o visto, pela primeira vez fiquei receoso em dizer que “trabalhava com informática”.

Não foi minha intenção ficar sem escrever tanto tempo, mas isso mostra que andei um tanto quanto ocupado.

Não vou fazer promessas, mas tentarei escrever com mais frequencia. Tanta coisa para contar…

4 meses de Timor

Depois de escutar Amado Bastista tocando na rádio dentro do taxi, percebi o quanto de novidades eu havia acumulado para contar.

4 meses de timor. 4 meses sem cinema, livrarias, comida da mamãe. 4 meses sem sexo, sem beijar na boca, sem aquelas discussões sadias que a gente sempre tem
com o irmão caçula.

4 meses longe da minha noiva, dos amigos, da família.

Em compensação, 4 meses de pura novidade. Novos amigos, nova realidade, nova cultura. O timor é um contraste a todo instante. Onde um aluguel pode custar
500 dólares (para “malai”) se isso é mais que o dobro da média de salário nacional?

Nesse meio-tempo, muita coisa aconteceu. A maioria merece um post à parte, como a viagem pelo sudeste asiático, o dia em que estive com um milhão no bolso,
ou mesmo o “morango do nordeste” tocando na balada.

É muito louco ir em uma reunião e de repente perceber que no grupinho conversando tem mais de 5 nacionalidades. E a cena se repetir no supermercado, no restaurante,
no seu dia-a-dia.

É complicado viver em um pais que não tem telefonia fixa (3G, o que é isso???), não tem um sistema de transporte público, e onde a partir das 7 da noite não tem mais taxi.

É maravilhoso viver perto de praias tão lindas, poder caminhar com o laptop sem ter medo de ser assaltado.

Vou tentar escrever com mais frequencia. No país dos contrates, assunto não faltará.

O natal na prisão

Este ano a festa de Natal foi na prisão.Calma, não cometi nenhum crime, tampouco estava visitando algum parente perigoso. Explico: o Ministério da Justiça resolveu fazer uma festa de Natal conjunta para todos os orgãos do sistema (procuradoria, defensoria, juizados, etc) e escolheu como lugar nada mais nada menos que a prisão!

Natal na prisao

A festa foi legal. Havia guardas e pessoas pra tudo quanto é lado (eu sei, guardas são pessoas também, mas minha noiva vai achar mais seguro o lugar com a sentença nessa forma). A comida também estava muito boa. Eu perguntei ao Rubem, um timorense muito gente boa que trabalha comigo se estava tendo uma festa lá dentro para os presos, ao mesmo tempo. Ele disse que não, que os presos estavam lá fora também, com roupas para diferenciar e impedir que eles tentem fugir. Quase tive um treco. Fui conferir com um dos responsáveis pela prisão, e fiquei mais tranquilo em saber que o Rubem estava enganado, eles estavam lá dentro, e não sairiam. :)

Outra coisa interessante que acotneceu foi a chefe de toda a rede penitenciária (são 3 prisões no Timor) pegar o microfone e começar a cantar músicas de natal. E deu um show, a mulher canta muito bem! Estava muito quente, e não tinha sombra para todo mundo, então acabei indo embora logo. Mas essa foi uma daquelas experiências que vou lembrar por muitos anos.